terça-feira, 18 de janeiro de 2011

parênteses (post da simone)


o português

chegamos no começo da noite. ainda estava claro, mas a lua cheia já se exibia no céu. véspera de eclipse lunar. havíamos viajado por 11 horas e estávamos exaustos, eu louca por um banho de mar. nina e lobinho se comportaram super bem na viagem, já aprenderam a sentar e aguardar o momento de parar.

um moço simpático nos recebeu: "sejam bem-vindos à Praia da Paixão". antes de sairmos de são paulo, procuramos hotéis e pousadas que aceitassem cachorros e isso nos fez, inclusive, alterar um pouco a nossa rota. ao invés de irmos por montes claros (o que poderia poupar quilômetros) resolvemos descer de minas logo para o litoral baiano para parar em Prado, justamente onde fica a praia da paixão e a pousada que aceitava nossos bichinhos de estimação.

de fora o lugar era bem charmoso - uma grande casa com uma imensa área verde, à beira-mar. ficava a 12 kms para dentro da pista, com acesso por uma estrada de areia. paramos e descemos com tudo: mala com a roupa da noite, necessaire, geladeirinha com nossa marmita e água. uma noite de descanso realmente cairia muito bem.

pois bem, como estava falando, o moço da recepção era super simpático e tinha um sotaque curioso, misto de português de portugal com nãoseiquê. perguntei: da onde é o seu sotaque? de portugal, algarve. ah! você é português? não, sou brasileiro, mas vivo há muitos anos lá. estou de férias no brasil, por um ano.

ele era fake. mas eu não sabia dizer muito bem o que não encaixava na equação. uma hora ele disse para o sérgio:

-"se o senhor não compreender alguma palavra do que digo é só falar que eu repito."
- 'mas eu lhe entendo perfeitamente, roberto", disse o sérgio.

pois o roberto nos acompanhou, mostrando o hotel e nos levando ao quarto. nesse momento todo o glamour acabou. o corredor - escuro - cheirava a mofo, um mofo muito antigo que parecia pré-histórico. o quarto era bem mais ou menos, mais para menos, mas enfim, seria apenas uma noite. vamos tomar um banho de mar, havia uma varanda para os cachorros e tudo bem. 

roberto andava por esse corredor, como se estivesse em Versailles, encenando uma fábula de um glamour inexistente. lembrei do jack nicholson, em o iluminado.

quando saímos do quarto, prontos para ir à praia, roberto nos esperava para mostrar a 'área de lazer de nosso hotel'. duas piscinas grandes, uma churrasqueira, bar de piscina, tudo muito bem construído, mas absolutamente decadente. vasos murchos de plantas estavam pendurados na varanda do restaurante, no jardim ao lado da piscina, latinhas de refrigerante. fechamos os olhos e fomos para o mar. estava mesmo uma delícia. é maravilhoso tomar um banho de mar depois de tantos meses. nos esbaldamos. na volta, tomamos banho e fomos jantar.

até esse momento, roberto estava nos tratando muito bem. sérgio fez lhe elogios e foi aí que tudo se revelou. esse homem disparou a falar por uma meia hora sem parar sobre sua vida. contou que tinha distúrbio do sono, que fica dias e dias sem dormir, que morou em brasília, que sua primeira esposa morreu  e ele colocou todos os móveis de sua casa à venda por 7 mil reais, vendeu e juntou com o dinheiro que tinha e se mandou para além-mar. lá, não sei bem o que fez. parece que trabalhou em hotéis em lisboa, depois foi para o porto e, por fim, se fixou no algarve. e agora estava de volta ao brasil, não se sabe bem porque, mas em breve iria para suíca, quem sabe espanha ou portugal....
o fato é que ele prdeu a noção do bom atendimento e não parava de falar nem por um momento.



até que interrompi e pedi o nosso jantar. ele foi à cozinha. ufa!

suas histórias ficaram em nossa conversa, a história do distúrbio do sono, o fato dele ser novo ainda e portanto não daria para morar tanto tempo em portugal ao ponto de arranjar sotaque e blablabla. 

quando terminamos o jantar, comunicamos que no dia seguinte partiríamos de madrugada - seria o nosso trajeto mais longo, 1200 km, até piranhas, no alto sertão de alagoas - portanto, gostaríamos de saber se teria alguém para abrir a porta da pousada para nós. no que roberto prontamente disse:


- eu estarei acordado. lembrem-se que tenho distúrbio do sono e nunca durmo. 


fomos nos deitar. quando acordamos, tudo às escuras. fomos chamar roberto e nada. ele roncava. sérgio arrumou todo o carro - levando as malas pela varanda do quarto - e, quando estávamos já no carro, buzinamos batemos palmas, chamamos por seu nome, até que enfim ele acordou de seu sono profundo. e disse: "eita, vocês já estão prontos?" 


o distúrbio do sono sonhava sono profundo e, quando acordou, esqueceu o sotaque de português. 
acordou com sotaque baiano.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

prado


chegamos em prado no final do dia. era lua cheia, e o céu estava claro. o cheiro da praia me inebriou. cães normalmente têm bom nariz e o cheiro da maresia é uma iguaria para nós. combina com liberdade, com correr ao vento, na areia. cheiro de sentar na varanda e sentir uma brisinha no focinho. gosto da praia. puxei a simone

paradas para esticar as patas

o tempo passa pela janela do carro


l'amour...

uma vez uma cadelinha francesa que conheci na paraíba me ensinou que amor em francês se escreve l'amour. pois eu achei que essa palavra combina com a fotos dos meus donos. l'amour.... au,au.

diego e eu nas minas

caminho para prado, bahia

pedra linda, perto de teófilo otoni, em minas gerais.

despedidas

saímos de ouro preto no dia 20 de dezembro bem cedinho e fomos em direção à prado. o google maps que a simone consultou dizia que seriam 857 kms, ou 10 horas de viagem. não sei muito bem calcular kms e ponteiros, mas a minha intuição canina me dizia que seria um bom tempo dentro do carro. despedi dos meus amigos, apolo e flora, gostei deles. apesar do apolo ser meio mesquinho com comida, eu achei ele bem bonitão. e a flora virou uma amigona,

paradas no meio do caminho

nosso espaço

viajamos no porta-malas, os dois juntinhos, de colherzinha. parávamos de vez em quando para fazer xixi, esticar as pernas e tomar água, depois eu já subia novamente no carro. (tinha medo que eles me esquecessem no caminho)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

rewind

é o seguinte: não conseguíamos postar nossas impressões da viagem durante a viagem. para a maioria dos lugares para onde fomos não havia conexão para internet. essa história de que o mundo todo está conectado não é muito pertinente. o brasil, ao menos, tem muitos lugares desconectados desse mundo virtual. por isso, como não tinhámos como postar dia a dia, vamos postar a seguir... como um flash-back. um diário do passado, com muitas fotos e sentimento.

aguardem, meus leitores, as nossas aventuras.
assinado: nina

quinta-feira, 13 de janeiro 2011

chegamos. estamos de volta à são paulo. abano o rabo quando vejo o meu sofá, o meu tapetinho, as plantas, os cheiros da minha casa. se gostei da viagem? sim, conheci muitos bichos, cheirei muitas novidades, mas voltar para casa tem um sabor único. sou velho e velho gosta de ficar em casa, de pantufas, assistindo TV e comendo as refeições nas horas certas. nessas três semanas de viagem eu mal comi e mal dormi. mas eu gostei de ter voltado à praia de campina, na paraíba, onde já fui muito feliz em outras épocas, namorei um sem-número de cadelas e tive muitos filhos. não reencontrei nenhum dos meus filhotes, mas só de sentir a maresia e a brisa do mar, me vieram à mente muitas memórias. já fui um garanhão. um cão-garanhão. hoje quero uma curva de rio, para me encostar. ou então aquela almofada do sofá de casa....

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

delícias dos humanos

 como cachorro sou privado de algumas delícias, como uma costelinha ao bafo por exemplo. eles, os humanos não se privam de nada e o fato é o que está registrado nessa foto aí de cima. eles estão num restaurante de comida mineira de fogão de lenha e em, poucos minutos, irão se fartar de uma bela refeição, com direito à carne, galinha, quiabo bem sequinho, saladinha da horta, feijão, arroz e angú. "e eu?" lhe pergunto. "fico à míngua", lhe respondo. me contentando com um pequeno pedaço de osso ao final. vida de cão.

cachoeira catarina mendes, ouro preto


catarina mendes era uma escrava que recebeu alforria de seu dono e se fixou em um pedaço de terra que tinha essa cachoeira. todos se esbaldaram. menos eu, que tenho medo de água. (fiquei só olhando)
ass. nina

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

quarto do paulo

simone e sérgio dormiram lá em cima, eu fiquei aqui embaixo. confesso que fiquei um pouco perturbado com a movimentação nova. não gosto de novidades, também que pessoa na minha idade
gosta de sassarico? (a nina gosta de uma mudança na rotina. eu, não. quero mais um sofá, uma sombra e uma carninha bem fresca.

vista do quarto do paulo

lavras novas, minas gerais

os escravos fugiram dos seus senhores e caminharam por dias, mata a dentro. aí encontraram um lugar no alto de um morro. ali fizeram seu cantinho. lavras novas é pertinho de ouro preto e já foi quilombo. hoje é um lugar cheio de pousadas bacanas e restaurantes com tudo aquilo que eu gosto (galinha ao molho pardo, costelinha, carne de porco).
esses quatro são o sérgio, a simone, a luiza e o paulo (donos da flora e do apolo)

flora e apolo


ouro preto, minas gerais

depois de 8 horas de viagem, chegamos. essa é a praça tiradentes, no centro de ouro preto. paulo e nelcy nos esperavam para nos levar para a casa deles, que fica no alto do morro são sebastião. dentro de poucos minutos eu conheceria a flora e o apolo, dois pastores canadenses, meio bravos, disse o paulo. simone ficou preocupada. porque ela disse que eu sou brava. (na verdade, não sou brava,
só sei me defender muito bem)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

estrada real


cheiro de chuva é bom

no meio do caminho

no meio da fernão dias....

minha história

eu tenho um olfato super bom. dizem que todo cachorro tem. mas o fato é que meu olfato já me salvou de poucas e boas. sou do sertão. nasci em água branca, no interior da paraíba, meu dono era um vaqueiro que gostava de mim enquanto eu caçava para ele. meu nariz já me levou a belos bichos, já vasculhou gado perdido, já encontrou preás atrás de moitas, já caçou passarinhos e aves. mas eu cresci e envelheci e, quando tinha uns 8 anos na idade canina, o vaqueiro me deixou de lado, deixou de me dar comida e começou a cuidar só do meu filho. (acho que ele deixou de confiar no meu olfato) e aí, eu tive que ir atrá da minha própria comida. uma bela noite, vasculhando o lixo atrás da cozinha da casa grande, um homem me viu e minha história mudou a partir desse momento. esse homem se encantou comigo e me tirou de água branca. me levou para joão pessoa e depois para são paulo. sim eu voei de avião para o sul. e aí fui muito bem-tratado. e hoje aqui estou de volta à paraíba, depois de 8 anos. (gostaria de ver a cara do vaqueiro quando me visse!) aquele homem que me viu lá em água branca é o sérgio, que depois conheceu a simone e a nina. e formamos uma pequena família de humanos e caninos.

diário pra trás >> indo para as Gerais

sábado, 25 de dezembro de 2010

diário pra trás >> pegando estrada

o primeiro grande desafio foi sair de são paulo. enfrentar a matilha de carros que vive na marginal. depois de uns 45 minutos, andando e parando, parando e andando, lá fomos nós para a fernão dias. estavam todos felizes.

no porta-malas

diário pra trás >> saindo de casa

esse é o nosso carro. eu e a nina fomos atrás, no porta-malas.

chegamos

ufa, enfim, depois de 7 dias de viagem, 7 estados, 8 tanques de gasolina, chegamos em joão pessoa, na noite de natal, às 20h32. mas para não estragar as novidades, vou voltar um pouco no tempo e contar a nossa aventura a partir do primeiro dia.

por nina.